The Fort Worth Press - Dívida sob tensão global

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Dívida sob tensão global




Três movimentos que pareciam pertencer a histórias separadas passaram a formar um único retrato do mercado global. O Brasil discute qual é a medida mais adequada de sua dívida pública. O Japão e os Estados Unidos entram no mercado de câmbio para conter a queda do iene. Ao mesmo tempo, os juros de longo prazo sobem com violência nas maiores economias, mesmo quando parte da curva curta começa a imaginar alguma moderação do aperto monetário. O elo entre os três episódios é o preço da confiança. Governos muito endividados continuam capazes de se financiar, mas o mercado exige uma remuneração cada vez maior para carregar riscos fiscais, inflacionários e políticos por décadas.


A expressão dívida real do Brasil chama atenção, mas pode induzir a uma conclusão equivocada. Não existe uma única cifra secreta que substitua todas as demais. Existem conceitos distintos, construídos para responder a perguntas diferentes. O ponto relevante não é escolher o número mais conveniente, e sim compreender o perímetro de cada cálculo, o custo efetivo da dívida e a velocidade com que esse custo se transforma em nova dívida.


A dívida muda conforme a régua

Em junho de 2026, a Dívida Bruta do Governo Geral calculada pela metodologia nacional alcançou 81,9 por cento do Produto Interno Bruto, equivalentes a 10,8 trilhões de reais. Essa medida reúne o Governo Federal, o INSS e os governos estaduais e municipais. No mesmo mês, a Dívida Líquida do Setor Público ficou em 68,5 por cento do PIB, ou 9 trilhões de reais, porque desconta ativos financeiros do setor público.


Há ainda a Dívida Pública Federal administrada pelo Tesouro Nacional. Seu estoque chegou a 9,3 trilhões de reais em junho. Ela não é idêntica à dívida bruta do governo geral, pois cobre outro conjunto de obrigações. A comparação direta entre essas três cifras, sem explicar o que cada uma inclui, produz mais ruído do que informação.


Pelo critério internacional mais abrangente, a projeção para a dívida bruta do governo geral brasileiro chega a 97,8 por cento do PIB em 2026. A diferença em relação à métrica nacional decorre principalmente da inclusão de títulos do Tesouro mantidos no balanço do Banco Central e não utilizados em operações compromissadas. Não se trata de descobrir uma dívida clandestina. Trata-se de consolidar de outra forma os compromissos existentes e tornar a posição brasileira comparável à de outros países. A dívida bruta é especialmente útil para avaliar necessidades de refinanciamento e exposição a juros. A dívida líquida ajuda a observar o balanço patrimonial depois da dedução de ativos. O estoque administrado pelo Tesouro mostra a estrutura dos títulos que precisam ser rolados. Nenhum desses indicadores deve ser isolado. Uma análise responsável precisa olhar os três, além dos passivos contingentes, dos vencimentos e da qualidade dos ativos usados para reduzir a dívida líquida.


O problema central está nos juros

O dado mais preocupante não é apenas o tamanho do estoque, mas o custo de carregá-lo. Nos doze meses encerrados em junho, os juros nominais do setor público somaram 1,1605 trilhão de reais, o equivalente a 8,8 por cento do PIB. Um ano antes, essa despesa estava em 7,41 por cento do PIB. O déficit nominal, que combina o resultado primário com os juros, chegou a 1,3178 trilhão de reais, ou 9,99 por cento do PIB.

 

A diferença entre o déficit primário de 1,19 por cento do PIB e o déficit nominal próximo de 10 por cento mostra onde está a pressão. O governo ainda gasta mais do que arrecada antes dos juros, mas é a conta financeira que transforma um desequilíbrio administrável em uma dinâmica explosiva. No acumulado de 2026 até junho, a incorporação de juros acrescentou 4,9 pontos percentuais do PIB à dívida bruta. As emissões líquidas adicionaram outro 1,3 ponto, enquanto o crescimento nominal do PIB reduziu a relação em 2,7 pontos. Essa composição também explica por que uma redução lenta da taxa básica não produz alívio imediato. Quase metade da Dívida Pública Federal estava ligada à Selic em junho, com participação de 49,32 por cento. Títulos pós-fixados facilitam a captação quando os investidores evitam prazos longos, mas transferem para o Tesouro grande parte do risco de os juros permanecerem elevados. A proteção oferecida ao comprador transforma-se em sensibilidade fiscal para o emissor.


O Brasil não enfrenta o modelo clássico de crise externa observado em países que acumulam grande dívida em moeda estrangeira. Aproximadamente 4 por cento da dívida federal está vinculada a moedas externas. O país dispõe de reservas cambiais, mercado doméstico amplo, capacidade tributária e um regime de câmbio flexível. Esses fatores reduzem o risco de uma ruptura imediata. Eles não eliminam, porém, o risco de empobrecimento gradual provocado por juros reais altos, menor investimento, crescimento fraco e aumento contínuo da parcela do orçamento destinada ao serviço da dívida.


A matemática exige mais do que metas

A trajetória da dívida depende de uma relação simples e implacável. Quando o custo médio do financiamento supera o crescimento nominal da economia, o governo precisa produzir superávits primários maiores apenas para impedir que a relação entre dívida e PIB continue subindo. Quanto mais elevada a taxa exigida pelo mercado, maior o esforço fiscal necessário. Quanto menor o crescimento, mais difícil se torna estabilizar o estoque.


Os cenários para os próximos anos mostram como pequenas diferenças de hipótese produzem trajetórias muito distintas. Pela definição internacional e sob um cenário que já pressupõe medidas fiscais adicionais, a dívida bruta pode alcançar cerca de 105 por cento do PIB em 2031 e estabilizar-se perto de 106 por cento em 2035. Essa estabilização depende de providências equivalentes a aproximadamente 1,3 por cento do PIB que ainda não estão integralmente detalhadas.


Na metodologia nacional, o cenário oficial associado às metas fiscais projeta um pico de 87,8 por cento do PIB em 2029, seguido de redução para 84,1 por cento em 2035. As expectativas privadas compiladas no mercado são menos benignas e apontam para uma dívida próxima de 100 por cento do PIB em 2035, sem estabilização clara. A distância entre os cenários não é uma disputa meramente contábil. Ela revela divergências sobre juros, crescimento, receitas, controle de despesas e cumprimento efetivo das metas.


O arcabouço fiscal continua oferecendo uma referência, mas exceções legais, deduções autorizadas e despesas retiradas das metas tornam a leitura menos transparente. Uma meta pode ser formalmente cumprida e, ainda assim, a necessidade de financiamento permanecer elevada. Precatórios, gastos extraordinários e despesas autorizadas fora dos limites não desaparecem economicamente porque receberam tratamento jurídico distinto. Se exigem caixa, acabam influenciando emissões, dívida ou redução de outros gastos.


A curva americana enviou um aviso

O segundo foco de tensão está nos Estados Unidos. No fim de julho, o banco central norte-americano manteve os juros de curto prazo inalterados, apesar de três votos favoráveis a uma elevação. A reação inicial foi de queda nas taxas curtas. Pouco depois, porém, os títulos longos passaram a ser vendidos com força. O rendimento do título do Tesouro de trinta anos chegou a 5,27 por cento em 31 de julho, o maior nível em dezenove anos, e permaneceu em 5,23 por cento no início de agosto.


Esse movimento é mais importante do que uma oscilação diária. A curva ficou mais inclinada porque o mercado passou a aceitar a possibilidade de juros menores ou estáveis no curto prazo, mas exigiu um prêmio maior para financiar o governo por vinte ou trinta anos. A mensagem é incômoda. Um banco central controla diretamente a taxa de curtíssimo prazo, mas não consegue ordenar que investidores aceitem qualquer remuneração na ponta longa.


Os juros longos incorporam a inflação esperada, a taxa real de equilíbrio, o volume de títulos a ser absorvido, o risco de perdas e o chamado prêmio de prazo. Quando déficits elevados se combinam com emissões crescentes e dúvidas sobre a disposição política de controlar a inflação, esse prêmio aumenta. O resultado pode ser um aperto financeiro mesmo sem nova alta da taxa básica. Hipotecas, crédito corporativo, infraestrutura, avaliação de ações e custo de capital dependem da ponta longa. O fenômeno não está restrito aos Estados Unidos. A necessidade de financiamento soberano atingiu níveis recordes em escala global. Ao mesmo tempo, bancos centrais reduzem gradualmente suas carteiras, fundos de pensão encurtam a duração média de seus investimentos e compradores tradicionais exigem maior compensação. A era em que enormes volumes de dívida podiam ser emitidos sem alterar significativamente o custo parece ter terminado.


Para o Brasil, o título longo norte-americano funciona como uma referência mundial. Se um papel do governo dos Estados Unidos com vencimento em trinta anos paga mais de 5 por cento, ativos brasileiros precisam oferecer remuneração adicional suficiente para compensar risco cambial, inflação, volatilidade e incerteza fiscal. É por isso que um choque em Washington chega rapidamente à curva de juros brasileira, mesmo quando não há notícia doméstica decisiva.


A intervenção no iene expõe outra fragilidade

O terceiro sinal veio do mercado de câmbio. Em 31 de julho, o Ministério das Finanças do Japão comprou ienes em coordenação com o Tesouro dos Estados Unidos para conter movimentos considerados excessivos e desordenados. A moeda japonesa havia se aproximado de 164 ienes por dólar, seu menor valor em quatro décadas. Depois da ação, recuperou parte das perdas, mas a operação deixou claro que a fraqueza cambial já era vista como um risco de alcance internacional.


A mecânica parece simples. A autoridade vende uma moeda de reserva e compra ienes, criando demanda imediata pela moeda japonesa. O efeito pode ser forte quando surpreende posições especulativas, mas tende a desaparecer se os fundamentos permanecerem inalterados. Intervenção cambial compra tempo. Ela não substitui coerência entre política monetária, política fiscal e expectativas de inflação. A operação foi incomum porque envolveu diretamente Washington. Informações do mercado indicam que a parcela norte-americana utilizou euros para comprar ienes, evitando a venda direta de dólares e reduzindo a interpretação de que os Estados Unidos pretendiam enfraquecer sua moeda de maneira generalizada. O Japão também anunciou a intenção de recorrer futuramente à linha de recompra para autoridades monetárias estrangeiras, conhecida pela sigla FIMA. Esse mecanismo permite obter dólares temporariamente oferecendo títulos do Tesouro norte-americano como garantia, sem precisar despejar esses papéis no mercado.


Esse detalhe liga o câmbio aos juros longos. O Japão é o maior detentor estrangeiro de títulos públicos dos Estados Unidos, com uma carteira próxima de 1,14 trilhão de dólares. Se precisasse vender uma parcela relevante dessas reservas para financiar intervenções, poderia pressionar ainda mais os rendimentos norte-americanos. A linha de recompra reduz a necessidade de venda imediata e atua como uma proteção contra desorganização no mercado de títulos.


O Japão também enfrenta sua própria alta de juros longos. No leilão de 4 de agosto, o título público de dez anos foi aceito com rendimento de até 2,9 por cento, nível impensável durante o período de juros próximos de zero. Os papéis de trinta anos passaram a negociar perto de 4 por cento. O governo e o banco central estão presos a um dilema. Normalizar a política monetária pode sustentar o iene e conter a inflação importada, mas eleva o custo de financiamento de uma dívida pública gigantesca. Manter condições muito frouxas reduz a pressão imediata sobre o Tesouro, porém enfraquece a moeda e encarece energia e alimentos importados.


Do Japão ao Brasil, o risco viaja pela renda fixa

O mercado japonês importa para o Brasil porque investidores, seguradoras e fundos de pensão do país mantêm grandes posições em títulos estrangeiros. Quando os rendimentos domésticos sobem, parte desse capital ganha incentivo para voltar ao Japão. Menor demanda japonesa por títulos norte-americanos pode elevar os juros nos Estados Unidos. Juros norte-americanos mais altos, por sua vez, reduzem a atratividade relativa de ativos emergentes e aumentam o custo exigido dos títulos brasileiros.


Esse mecanismo não precisa produzir uma fuga abrupta para causar dano. Basta que o comprador marginal exija uma taxa maior. O Tesouro brasileiro, ao encontrar resistência para vender títulos prefixados ou indexados à inflação em prazos longos, passa a oferecer mais papéis ligados à Selic. A rolagem continua, mas a composição se deteriora. O risco que o investidor não deseja carregar por dez anos retorna ao balanço do governo na forma de dívida pós-fixada. A pressão também chega pelo câmbio. Uma alta persistente dos juros norte-americanos tende a fortalecer o dólar e a reduzir liquidez para economias emergentes. Se o real perde valor, combustíveis, insumos e bens importados ficam mais caros. A inflação esperada aumenta, o banco central ganha menos espaço para reduzir a Selic e o custo da dívida demora mais a cair. Forma-se um circuito em que risco fiscal, juros, câmbio e inflação se alimentam mutuamente.

É por isso que não basta olhar para a próxima decisão de política monetária. A taxa básica brasileira ainda se encontrava na faixa de 14 por cento no início de agosto, mas o verdadeiro teste está na capacidade de reduzir também a remuneração exigida nos vencimentos mais longos. Um corte na ponta curta pode coexistir com alta na ponta longa quando o mercado interpreta o alívio como prematuro ou considera insuficiente o ajuste fiscal.


Não há colapso imediato, mas o conforto acabou

A conclusão não é que o Brasil esteja prestes a deixar de pagar sua dívida. O país emite majoritariamente em moeda própria, possui uma base doméstica de investidores, reservas internacionais e instrumentos para administrar vencimentos. Também mantém um colchão de liquidez relevante. Essas características oferecem tempo e capacidade de reação que muitas economias em crise não possuem.


A conclusão correta é menos dramática e mais séria. O Brasil está pagando um preço crescente para preservar essa estabilidade. Juros nominais equivalentes a quase 9 por cento do PIB, dívida bruta em alta, dependência maior de papéis pós-fixados e metas cercadas por exceções reduzem a margem de manobra do próximo ciclo econômico. Uma recessão, um novo choque de petróleo, uma desvalorização cambial ou outra alta dos juros globais encontraria o setor público em posição mais vulnerável. A resposta sustentável exige previsibilidade plurianual. Isso significa controlar o crescimento das despesas obrigatórias, revisar gastos tributários, reduzir exceções, apresentar medidas fiscais com valores e prazos verificáveis e reconstruir a demanda por títulos de prazo mais longo. Também significa evitar a ilusão de que receitas extraordinárias resolvem um problema permanente. O mercado distingue arrecadação recorrente de ganhos temporários e cobra essa diferença na taxa.


Os episódios do Brasil, do iene e dos juros longos contam, portanto, a mesma história. O dinheiro deixou de ser barato, a dívida voltou a competir por capital e a ponta longa da curva tornou-se um referendo diário sobre credibilidade. A dívida real não é apenas o número publicado em uma tabela. É o conjunto de pagamentos futuros que a sociedade terá de financiar, a taxa que os investidores exigem para aceitá-los e a confiança de que o Estado conseguirá honrar esses compromissos sem inflação, repressão financeira ou sucessivas mudanças de regra.
Enquanto essa confiança não melhorar, cortes graduais de juros poderão aliviar o presente sem resolver o futuro. E é justamente no futuro, representado pelos títulos de dez, vinte e trinta anos, que o mercado está cobrando a conta com maior rigor.