The Fort Worth Press - A China ganha terreno

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A China ganha terreno




A corrida global pela inteligência artificial entrou numa fase menos confortável para a OpenAI e para a Anthropic. Durante dois anos, as duas empresas norte-americanas puderam apresentar cada novo modelo como prova de que a fronteira tecnológica continuava concentrada em Silicon Valley. Essa vantagem não desapareceu, mas deixou de parecer intransponível. A China já não surge apenas como um mercado condicionado por restrições a semicondutores avançados. Surge como produtora de modelos competitivos, baratos e suficientemente abertos para conquistar programadores, empresas e investigadores fora das suas fronteiras.

O sinal mais recente veio da Z.ai. O modelo GLM-5.2 aproximou-se dos melhores sistemas norte-americanos em programação e em tarefas executadas por agentes, mas chegou ao mercado com custos muito inferiores e com uma proposta mais flexível para quem pretende instalar, adaptar ou integrar a tecnologia. No início de julho de 2026, numa das principais plataformas públicas de avaliação, os oito modelos abertos mais bem classificados em tarefas de agentes e os dezassete mais bem classificados em programação tinham sido desenvolvidos por equipas chinesas. DeepSeek, Qwen, Kimi e GLM deixaram de ser alternativas de segunda linha. Em vários cenários, tornaram-se a primeira escolha para quem procura eficiência. A mudança não se mede apenas por pontos em tabelas técnicas. Mede-se pela fatura. Os agentes de inteligência artificial consomem grandes quantidades de capacidade computacional porque executam sequências longas de raciocínio, chamam ferramentas, reveem resultados e repetem operações até concluírem uma tarefa. Quando cada etapa é cobrada por volume de utilização, o preço final pode tornar-se imprevisível. Para uma empresa que processa milhões de pedidos, uma diferença aparentemente pequena no custo de cada operação transforma-se rapidamente numa vantagem comercial decisiva.

É nesse terreno que a estratégia chinesa tem sido mais eficaz. Em vez de depender apenas de serviços fechados, vendidos através de interfaces controladas pelo fornecedor, grande parte do ecossistema chinês apostou em modelos com pesos disponíveis, preços agressivos e compatibilidade com infraestruturas menos dispendiosas. A qualidade ainda varia e persistem dúvidas sérias sobre segurança de dados, censura, propriedade intelectual e dependência tecnológica. Ainda assim, a combinação entre desempenho, custo e liberdade de adaptação alterou o equilíbrio do mercado.

A OpenAI e a Anthropic mantêm vantagens poderosas. Têm marcas reconhecidas, relações profundas com grandes empresas, acesso privilegiado a capital, redes de distribuição globais e modelos que continuam entre os mais capazes do mundo. A OpenAI conserva uma base de utilizadores de dimensão extraordinária e a Anthropic consolidou uma posição particularmente forte no trabalho empresarial e na programação. O problema é que essas vantagens custam cada vez mais dinheiro e já não garantem, por si só, margens elevadas ou fidelidade permanente dos clientes.

A aproximação à bolsa tornou essa fragilidade mais visível. A Anthropic apresentou confidencialmente a documentação para uma oferta pública inicial no início de junho. A OpenAI avançou pelo mesmo caminho poucos dias depois, mas passou a ponderar uma estreia apenas em 2027 para preservar a ambição de uma avaliação próxima de um bilião de dólares. A alternativa seria entrar mais cedo com um preço inferior. A hesitação é reveladora. O mercado privado tolera promessas de crescimento durante longos períodos. O mercado bolsista exige contas auditadas, previsibilidade de custos, margens defensáveis e uma explicação convincente sobre o momento em que o investimento maciço em centros de dados começará a produzir lucros duradouros.

Este é o ponto em que a pressão chinesa se encontra com o receio de uma bolha. A OpenAI e a Anthropic podem aumentar rapidamente a faturação e, ao mesmo tempo, continuar a consumir capital a um ritmo difícil de sustentar. Treinar modelos de fronteira, reservar semicondutores, construir centros de dados, contratar investigadores e servir centenas de milhões de pedidos são atividades dispendiosas. Se modelos mais baratos reduzirem o preço médio do mercado, a faturação poderá crescer sem que a rentabilidade acompanhe esse crescimento. A inteligência artificial continuaria a transformar a economia, mas os primeiros líderes não seriam necessariamente os maiores vencedores financeiros.

É neste contexto que surge Donald Trump. A pergunta sobre uma eventual intervenção já tem uma resposta parcial: a intervenção começou. Em 2 de junho de 2026, o Presidente assinou uma ordem que prevê um quadro voluntário para que os criadores de modelos de fronteira facultem ao Governo federal acesso antecipado, até trinta dias antes da disponibilização a parceiros de confiança. O texto rejeita formalmente a criação de uma licença obrigatória, mas estabelece uma estrutura de avaliação federal para capacidades avançadas de cibersegurança e para a seleção de utilizadores com acesso inicial. A prática foi ainda mais longe. Em 12 de junho, a Anthropic recebeu uma diretiva que proibia o acesso aos modelos Fable 5 e Mythos 5 por qualquer pessoa sem nacionalidade norte-americana, dentro ou fora dos Estados Unidos. Como a empresa não conseguia verificar a nacionalidade de cada utilizador em tempo real, suspendeu os dois modelos para todos. As restrições foram levantadas no final do mês depois de novas salvaguardas, embora o acesso ao Mythos 5 tenha recomeçado de forma limitada. A OpenAI, por seu lado, adiou a disponibilização ampla do GPT-5.6 a pedido do Governo e iniciou uma fase restrita com parceiros identificados perante as autoridades. A distribuição geral começou depois de testes adicionais e de novas reuniões com responsáveis federais.

Washington passou, assim, de comprador e financiador a participante direto no calendário de lançamento de produtos privados. A justificação é a segurança nacional. Modelos com capacidades avançadas de programação podem encontrar vulnerabilidades, automatizar operações cibernéticas e reduzir o nível de conhecimento necessário para realizar ataques. A mesma tecnologia também permite corrigir falhas, proteger infraestruturas e acelerar a defesa. O dilema não está em reconhecer o risco. Está em decidir quem controla o acesso, por quanto tempo e com que critérios.

A política de Trump contém uma contradição evidente. A Administração afirma que os Estados Unidos não podem perder a liderança por excesso de regulação, mas criou mecanismos que podem atrasar as empresas norte-americanas precisamente quando os concorrentes chineses ganham terreno. A limitação temporária dos modelos da Anthropic e o atraso do GPT-5.6 aumentaram o interesse internacional por alternativas chinesas. Uma medida concebida para proteger a vantagem dos Estados Unidos pode, se for mal calibrada, acelerar a adoção do rival.

Há ainda uma dimensão financeira. Trump declarou estar a estudar formas de permitir que a população beneficie diretamente da riqueza criada pela inteligência artificial. A OpenAI terá discutido a possibilidade de entregar ao Governo federal uma participação de cinco por cento e terá defendido soluções semelhantes para outras empresas norte-americanas. Não existe um acordo confirmado. Mesmo assim, a simples discussão mostra até onde pode chegar a aproximação entre poder político, capital público e empresas de fronteira.

Uma participação estatal poderia dar ao Governo uma parte das futuras valorizações e tornar politicamente mais aceitável o apoio a infraestruturas energéticas, semicondutores, contratos federais e investigação. Também criaria problemas difíceis. O Estado seria simultaneamente regulador, cliente, acionista e responsável pela segurança nacional. Poderia favorecer determinadas empresas, reduzir a concorrência interna e transformar decisões técnicas em disputas políticas. Para a OpenAI, a proximidade a Washington poderia facilitar financiamento e acesso ao mercado federal, mas aumentaria o escrutínio e a dependência de uma Administração cujas prioridades podem mudar.

A Anthropic enfrenta um risco diferente. A empresa construiu parte da sua identidade em torno de limites de utilização e de salvaguardas mais rígidas. O confronto com o aparelho de defesa norte-americano mostrou que essa posição pode ter custos comerciais e jurídicos. Ao mesmo tempo, o episódio reforçou a perceção de que os seus modelos têm capacidades estratégicas reais. A empresa precisa de convencer investidores de que consegue proteger a sua autonomia, manter contratos empresariais e crescer sem ficar permanentemente presa a conflitos com o Governo.

A disputa com a China também entrou no domínio da propriedade intelectual. Empresas norte-americanas acusam grupos chineses de usar grandes volumes de respostas de modelos avançados para treinar sistemas concorrentes. Esta técnica, conhecida como destilação, é comum dentro da indústria, mas torna-se controversa quando envolve recolha automatizada, contas falsas ou violação de condições de utilização. A Anthropic acusou a Alibaba de uma operação deste tipo. A empresa chinesa não apresentou uma resposta pública detalhada e proibiu entretanto os seus trabalhadores de usar o Claude Code, depois de surgirem preocupações com mecanismos capazes de identificar ligações à China. O conflito já não se limita a chips ou tarifas. Chegou às contas de utilizador, aos servidores intermediários e ao próprio fluxo de dados que alimenta os modelos.

Pequim, por sua vez, estuda limitar o acesso estrangeiro aos modelos chineses mais avançados. Autoridades reuniram-se com empresas como Alibaba, ByteDance e Z.ai para discutir controlos sobre tecnologia fechada e sobre versões com pesos disponíveis. Não há ainda uma decisão final, e as medidas poderão aplicar-se apenas a futuros sistemas. A hipótese é, contudo, significativa. A China beneficiou da abertura dos seus modelos para aumentar influência, criar dependência e demonstrar que consegue competir apesar das restrições a semicondutores. Fechar essa porta protegeria ativos estratégicos, mas reduziria uma das suas armas comerciais mais eficazes.

Forma-se, assim, uma fronteira digital em duas direções. Os Estados Unidos tentam impedir que capacidades de ponta cheguem a adversários e estudam formas de proteger modelos contra cópia. A China considera fazer o mesmo. No meio ficam milhares de empresas, universidades e programadores que combinam tecnologias de ambos os lados. Quanto mais rígidas forem as barreiras, maior será o incentivo para construir cadeias tecnológicas regionais, duplicar infraestruturas e substituir fornecedores por razões políticas, mesmo quando a alternativa é mais cara ou menos capaz.

Para a Europa, o problema é especialmente delicado. Empresas europeias procuram modelos competitivos, proteção de dados, preços previsíveis e continuidade de serviço. Uma arquitetura dependente de um único fornecedor norte-americano pode ficar exposta a decisões de Washington. Uma arquitetura assente apenas em modelos chineses pode enfrentar riscos de segurança, sanções e futuras restrições de Pequim. A resposta mais prudente passa por diversificar modelos, reforçar capacidade computacional própria e investir em sistemas europeus que possam ser auditados e adaptados localmente. Trump pode intervir de várias formas: acelerar o licenciamento de redes elétricas, centrais e centros de dados, garantir contratos públicos, financiar produção de semicondutores, apertar controlos de exportação, combater a destilação não autorizada ou até apoiar uma participação pública nas maiores empresas. Algumas dessas medidas podem reforçar a base industrial dos Estados Unidos. Outras podem proteger empresas específicas sem resolver o problema essencial. Nenhum decreto reduz automaticamente o custo de inferência, melhora um modelo ou cria uma comunidade global de programadores.

A China demonstrou que eficiência, abertura e velocidade de execução podem compensar limitações no acesso aos melhores chips. Os Estados Unidos continuam a dispor de mais capital, infraestruturas poderosas, universidades de topo, grandes plataformas de distribuição e uma concentração única de talento. A vantagem norte-americana é real, mas deixou de ser cómoda. A competição já não opõe modelos excelentes a cópias baratas. Opõe ecossistemas com estratégias diferentes para preço, acesso, segurança e poder político.

A intervenção de Trump poderá comprar tempo e proteger ativos sensíveis. Não será, por si só, um resgate para a OpenAI e para a Anthropic. Se fechar o mercado, atrasar lançamentos e favorecer um pequeno grupo de empresas, poderá tornar os concorrentes chineses ainda mais atraentes. Se melhorar energia, investigação, semicondutores, ciberdefesa e acesso responsável, poderá reforçar todo o ecossistema norte-americano. A diferença entre essas duas vias decidirá muito mais do que a próxima versão de um chatbot. A Casa Branca pode condicionar um lançamento, bloquear um contrato ou fechar uma fronteira digital. Não consegue, por decreto, tornar um modelo mais barato, uma empresa rentável ou um ecossistema mais atrativo. É aí que a corrida será decidida.