The Fort Worth Press - 'Endividados para sobreviver', argentinos se afundam na inadimplência

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'Endividados para sobreviver', argentinos se afundam na inadimplência
'Endividados para sobreviver', argentinos se afundam na inadimplência / foto: © AFP

'Endividados para sobreviver', argentinos se afundam na inadimplência

Pressionada por uma dívida que contraiu há um ano e que não consegue pagar, Andrea sente angústia e vergonha. Ela não é a única: a inadimplência das famílias na Argentina triplicou em doze meses e atingiu o seu nível mais alto em 20 anos durante o governo de Javier Milei.

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O principal problema é o estancamento da renda e a disparada do custo de vida, sobretudo devido às tarifas sobre serviços muito acima da inflação desde que o presidente ultraliberal chegou ao poder em dezembro de 2023.

Cerca de 5,8 milhões de argentinos são considerados inadimplentes, ou seja, com mais de 90 dias de atraso no pagamento de suas dívidas, segundo o Banco Central. Metade deles consta na lista de dívidas incobráveis.

Andrea trabalhava em uma fábrica de papel que fechou e, sem sucesso, tentou se reinventar vendendo comida caseira, contou à AFP essa mulher de 32 anos que tem uma filha.

A compra de um forno para alavancar o negócio destruiu suas finanças: "Atrasei os pagamentos e, em poucos meses, a dívida se tornou impagável". De um milhão de pesos (R$ 3.495) foi para cinco (R$ 17.475), e hoje ela mal consegue pagar a mensalidade da escola da filha.

A inadimplência bancária das famílias passou de 4,5% para 12,8% entre maio do ano passado e o mesmo mês em 2026, com apenas uma leve desaceleração em junho, para 12,7%.

No total, cerca de 21 milhões de argentinos, de uma população de 46 milhões, têm algum tipo de dívida.

Segundo Milei, o problema é "um acordo entre privados". O presidente afirma que ninguém obriga as pessoas a se endividarem.

"Colocaram uma arma na cabeça deles para fazer isso?", questionou em uma entrevista.

Os maiores atrasos são em empréstimos pessoais e cartões de crédito, que concentram mais de 70% dos inadimplentes, níveis inéditos "desde a crise de 2001", a pior colapso econômico da Argentina, assinalou um relatório do Centro de Economia Política.

- Taxas de 1.000% ao ano -

O presidente do Banco da Província de Buenos Aires, Juan Cuattromo, disse à AFP que "o crescimento da inadimplência não é consequência de decisões individuais, é o resultado de um contexto macroeconômico que deteriorou a renda, o emprego e a atividade econômica".

"É desesperador, acordo e vou dormir pensando em como vou pagar", diz Claudia Debaste, empregada de 40 anos cujo poder de compra desmoronou no mesmo ritmo em que cresceram suas dívidas.

"Comecei usando o cartão para gastos comuns, pagar contas de serviços, transporte, supermercado, farmácia", explica à AFP esta mãe solo, que entrou em inadimplência há quatro meses e busca um refinanciamento.

A curva de inadimplência das famílias aumentou quase cinco vezes desde novembro de 2024, um período em que o acesso ao crédito era fácil e sustentou certo nível de consumo, apesar das taxas que chegaram perto de 1.000% ao ano em carteiras digitais não bancárias.

Na semana passada, o dirigente de esquerda Gabriel Solano denunciou criminalmente o diretor-presidente do Mercado Livre, Marcos Galperín, por usura por meio dos empréstimos de sua carteira digital Mercado Pago, a mais usada na Argentina.

- "Escravidão financeira" -

Também há adolescentes endividados. "Nada de esperar para ser adultos", propõe o slogan de uma carteira virtual que oferece, a partir dos 13 anos, "empréstimos rápidos e totalmente online, com poucos requisitos, para contar com dinheiro em espécie na hora".

Os mais prejudicados são os jovens de até 30 anos. Segundo estatísticas do Banco Provincia, quase quatro em cada 10 jovens entre 18 e 21 anos não conseguem pagar seus créditos e, desse grupo, nove em cada 10 se endividaram antes de obter seu primeiro emprego formal.

Também há créditos informais para trabalhadores informais, cujas taxas começam em 260% ao ano, quadruplicando as taxas bancárias.

"As próprias plataformas de entrega nos oferecem empréstimos com taxas abusivas", disse à AFP Leandro Hidalgo, entregador e representante sindical do setor.

As cobranças são descontadas dos pagamentos semanais. E se não se paga? "Eles bloqueiam a conta, como se fosse uma demissão", disse.

"É uma 'escravidão financeira', porque nos endividamos para sobreviver com o mesmo salário", afirmou.

Duas destas plataformas, Pedidos Ya e Gurpi, procuradas pela AFP, não responderam.

Bancos estatais e privados lançaram linhas de resgate com taxas reduzidas atreladas à inflação, embora com requisitos difíceis de cumprir.

N.Patterson--TFWP