Ex-presidente Hernández volta a Honduras agradecido com indulto de Trump
O ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, que retornou ao seu país neste domingo (26), agradeceu ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por tê-lo indultado de uma sentença de 45 anos de prisão por tráfico de drogas, ao considerar ter sido vítima de uma "caça às bruxas".
O ex-presidente recebeu o perdão antes das eleições presidenciais de novembro passado, que seu correligionário conservador, Nasry Asfura, venceu por uma pequena margem, após Trump ameaçar cortar a ajuda a Honduras caso ele não fosse eleito.
"O presidente mais informado do mundo disse: eu revisei, minha equipe e eu o revisamos detalhadamente e aqui foi cometida uma tremenda injustiça, é uma caça às bruxas, é o uso da justiça como arma política", acrescentou Hernández, perante centenas de apoiadores em um sítio em Comayagua, a 60 km de Tegucigalpa.
Hernández, que chegou ao país em um voo privado e goza de proteção oficial por ser ex-presidente (2014-2022), agora vai enfrentar a justiça hondurenha, que o acusa de ter desviado dois milhões de dólares (R$ 10 milhões, na cotação atual) de fundos públicos para financiar sua primeira campanha presidencial.
"O menos que vou fazer é abaixar a cabeça, quando a verdade me assiste", advertiu, ao anunciar que tentará recuperar 131 bens que foram confiscados quando foi extraditado.
De um palanque equipado com telão, Hernández, advogado de 57 anos, também deixou em aberto a possibilidade de voltar à política se vir que "novamente um radicalismo" pode chegar ao poder, em alusão ao governo anterior de esquerda.
- "Debaixo do nariz dos gringos" -
JOH, como é conhecido por suas iniciais, voltou depois que um juiz hondurenho suspendeu uma ordem de prisão pelo suposto desvio de recursos, um caso pelo qual deverá se apresentar à justiça em 3 de agosto.
Seu retorno também ocorre quatro meses depois de a maioria direitista no Congresso ter destituído o procurador-geral, Johen Zelaya, próximo da esquerda.
É "um teste para a independência" judicial, disse à AFP Ana María Méndez, do Escritório de Washington para Assuntos Latino-americanos (WOLA).
Ela acrescentou que o caso "reabre o debate sobre a impunidade" após os questionamentos ao indulto concedido por Trump que, por outro lado, ordenou bombardear lanchas do narcotráfico com várias dezenas de mortos no Caribe e no Pacífico.
"Estamos muito contentes" por recebê-lo, comentou à AFP Eva Amador, apoiadora de Hernández de 56 anos, que exibia um cartaz com uma mensagem de agradecimento ao presidente americano.
Um juiz federal de Nova York condenou Hernández a 45 anos de prisão em junho de 2024, dois anos após sua extradição.
Ele foi considerado culpado de ajudar a contrabandear centenas de toneladas de cocaína produzida na Colômbia para os Estados Unidos, em conluio com narcotraficantes como o mexicano Joaquín "El Chapo" Guzmán, que cumpre pena de prisão perpétua nos Estados Unidos.
A Promotoria acusou o ex-presidente de transformar Honduras em um "narco-Estado" e uma "supervia" para o tráfico de drogas.
"Vamos enfiar a droga debaixo do nariz dos gringos e não vão nem perceber", teria dito Hernández, segundo uma testemunha que cooperou com a Promotoria.
A sentença foi anulada em abril passado, depois que o presidente republicano Trump concedeu o indulto a Hernández, alegando que ele tinha sido vítima de uma armação de seu antecessor na Casa Branca, o democrata Joe Biden (2021-2025).
- "Bofetada" nas vitimas -
A carreira política de Hernández foi marcada por denúncias de corrupção.
Há três meses, o Diario Red, veículo digital fundado pelo ex-vice-presidente espanhol Pablo Iglesias, divulgou áudios que supostamente revelam que Hernández foi indultado em um plano de Estados Unidos, Israel, Honduras e Argentina para transformá-lo em um operador contra a esquerda na região.
JOH tachou de falsas estas gravações, enquanto Asfura, que supostamente lhe ofereceu dinheiro, se manteve em silêncio.
O ex-presidente foi um dos impulsionadores das Zonas de Emprego e Desenvolvimento Econômico (ZEDE), territórios autônomos aprovados para atrair investimentos. Em 2024, foram declaradas inconstitucionais, mas algumas seguem operando.
Hernández acumulou tanto poder que, em 2017, se elegeu para um segundo mandato, apesar de a Constituição hondurenha proibir a reeleição.
Uma interpretação da Suprema Corte lhe abriu o caminho e, após vencer as eleições sob acusações de fraude, decretou toque de recolher pelos protestos que deixaram cerca de 30 mortos.
"Seu retorno em total impunidade e sem punição por estes crimes é uma tremenda bofetada nas vítimas", disse à AFP o analista jurídico Joaquín Mejía.
J.P.Estrada--TFWP