The Fort Worth Press - Da Colômbia a Darfur: como opera a rede que alicia mercenários para a guerra no Sudão

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Da Colômbia a Darfur: como opera a rede que alicia mercenários para a guerra no Sudão
Da Colômbia a Darfur: como opera a rede que alicia mercenários para a guerra no Sudão / foto: © ا ف ب

Da Colômbia a Darfur: como opera a rede que alicia mercenários para a guerra no Sudão

Centenas de ex-soldados colombianos foram atraídos para a guerra civil no Sudão com promessas de salários atraentes dos Emirados Árabes. Mas muitos deles encontraram a morte em um campo de batalha distante, e aqueles que sobreviveram estão envolvidos em crimes graves.

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Esta investigação revela como mercenários colombianos foram parar do outro lado do mundo, em uma rede de guerra, lucro e silêncio que se estende dos Andes aos campos de extermínio na região sudanesa de Darfur.

"Até hoje, seu corpo não foi repatriado", disse à AFP a viúva de um ex-soldado colombiano morto no Sudão, que não quis ter seu nome divulgado, por medo de represálias.

O ex-soldado, 33, viajou para o Sudão em meados de 2024. Ele integrava um grupo enviado por empresários sancionados pelos Estados Unidos para um conflito que já deixou dezenas de milhares de mortos e milhões de deslocados ameaçados de fome.

A partir de depoimentos, registros corporativos e verificações de imagens nos campos de batalha, a AFP revela como colombianos reforçam as fileiras das Forças de Apoio Rápido (FAR), um grupo paramilitar acusado de genocídio. Seguem abaixo as principais descobertas:

* Recrutados pela internet, a maioria deles foi levada para o Sudão via Emirados Árabes, onde recebeu treinamentos rápidos.

* Usaram pelo menos duas rotas para chegar ao Sudão: pelo leste da Líbia, leal aos Emirados, ou por uma base aérea em Bosaso, na Somália, que abriga militares emiradenses.

* Imagens verificadas de mercenários e testemunhas os situam em combates sangrentos em Darfur.

* Um ex-coronel colombiano sancionado pelos Estados Unidos é apontado por um antigo sócio como cérebro da operação de envio de 2.500 mercenários para lutar ao lado dos paramilitares das FAR no Sudão.

- País em chamas -

O Sudão está mergulhado em uma guerra entre as FAR e o Exército - controlado pelo governo de fato desde 2023 -, alimentada por interesses dos Emirados Árabes, do Egito, do Irã e da Arábia Saudita, entre outros.

Mercenários estrangeiros, principalmente de países africanos, como Eritreia e Chade, surgiram em ambos os lados. Mas a operação mais sofisticada é a dos colombianos, cobiçados por sua experiência com drones e artilharia, que recebem entre US$ 2.500 e US$ 4.000 mensais, cerca de seis vezes o que ganham do Exército, segundo um ex-militar.

O governo americano sancionou neste mês quatro colombianos e suas empresas que fazem parte dessa rede, sem mencionar o elo emiradense: a empresa Global Security Services Group (GSSG), sediada em Abu Dhabi.

Os Emirados negam as acusações do Sudão e de organizações internacionais de suposto apoio aos paramilitares. Segundo um funcionário do alto escalão do governo emiradense, isso faz parte de um "padrão de desinformação" para "desviar a atenção do trabalho vital de acabar com essa guerra brutal".

- Treinamento de crianças -

Familiares dos mercenários sofrem em silêncio. O marido da viúva colombiana morreu três meses após embarcar para o Sudão em meados de 2024, quando a campanha paramilitar para tomar o oeste de Darfur cambaleava.

Embora relatórios apontem dezenas de milhares de rebeldes, eles têm pouca experiência e equipamento. São hábeis em incursões brutais, mas não em operações de longo alcance, como os colombianos.

Com o apoio dos sul-americanos, segundo os Estados Unidos, a milícia tomou em outubro El Fasher, último reduto do Exército, em meio a relatos de execuções em massa, sequestros e estupros.

Vídeos geolocalizados pela AFP mostram colombianos dentro e no entorno da cidade antes de ela ser tomada. Em um veículo blindado, eles atravessam as ruínas do campo de refugiados de Zamzam, enquanto ouvem reggaeton. "Está destruída", diz um deles, com sotaque colombiano.

O campo foi invadido pelos milicianos em abril. Mais de 400 mil pessoas fugiram e até mil foram assassinadas, no que sobreviventes chamam de massacres étnicos.

Imagens mostram o homem com sotaque colombiano posando com crianças e fuzis. Outras mostram seus companheiros ensinando um combatente a acionar um lança-foguetes. Fotografias posteriores mostram o corpo ensanguentado do homem, chamado de "comandante".

O governo sudanês afirma que até 80 colombianos somaram-se ao cerco desde agosto, e que 43 foram mortos. Segundo a chancelaria colombiana, vários deles foram enganados por "redes de tráfico de pessoas".

- 'Interessado em trabalhar?' -

Um ano após se aposentar, um suboficial colombiano especializado em drones recebeu no WhatsApp uma mensagem incomum: “Algum veterano interessado em trabalhar? Procuramos reservistas de qualquer força."

O ex-militar, 37, que contou sua história à AFP, disse que solicitou informações, e que uma pessoa, que se identificou como ex-coronel da força aérea, disse a ele que a oferta era em Dubai e pagaria um salário mensal de US$ 4.200.

Todos os anos, milhares de soldados colombianos se aposentam ainda jovens, e recebem uma remuneração baixa. Alguns deles encontram oportunidades na indústria de segurança privada do Golfo.

O ex-militar aceitou a proposta, mas, em telefonema posterior, foi informado de que Dubai seria apenas uma escala de dois meses para "treinamento", e que ele seria enviado para a África em seguida, onde participaria de missões de reconhecimento com drones.

Desconfiado, o ex-militar entrou em contato com um amigo em uma empresa de segurança nos Emirados Árabes, e foi advertido de que, provavelmente, acabaria no Sudão, o que o fez desistir da proposta.

Um dos colombianos que aceitaram a oferta, o ex-militar Christian Lombana, documentou em redes sociais sua viagem até o Sudão via França e Abu Dhabi. O Bellingcat, grupo de pesquisadores que usa dados públicos disponíveis na internet, destaca fotografias que o situam no sudeste da Líbia, em uma área controlada pelo comandante Khalifa Haftar, que tomou o poder com o apoio dos Emirados.

Desde o começo da guerra no Sudão, o território de Haftar tem sido um corredor vital para os paramilitares das FAR, por meio do fornecimento de armas, combustível e combatentes.

Dias após a sua publicação no TikTok, o comboio de Lombana sofreu uma emboscada no deserto de Darfur. Um vídeo viralizado compartilhado por um combatente rival mostra os documentos do ex-militar espalhados na areia, juntamente com fotos de sua família. Em seu passaporte, havia carimbos de entrada nos Emirados Árabes e na Líbia.

O governo colombiano nunca confirmou a morte de Lombana. Outros mercenários, ainda vivos e identificados pela AFP, compartilharam recentemente fotos em Dubai, Abu Dhabi e cidades europeias. Um deles publicou no TikTok vídeos no deserto, em que aparecia vestido com uniforme militar. Outro se descreveu no Instagram como "mercenário".

- Escala na Somália -

Documentos e depoimentos apontam o ex-coronel colombiano Álvaro Quijano como coordenador do negócio. Segundo um antigo sócio ouvido pela AFP, o major reformado Omar Rodríguez, Quijano "suspendeu" a operação após reveses militares em 2024, e a retomou posteriormente, com alterações.

Recentemente, os mercenários passaram a transitar por Bosaso, na Somália. Moradores da região disseram à AFP que viram pelotões de estrangeiros uniformizados no local.

Bosaso fica em Puntland, uma região semiautônoma da Somália onde Abu Dhabi treina, arma e financia uma força marítima da autoridade local desde 2010, segundo especialistas da ONU. Fontes da segurança afirmam que militares emiradenses estão estacionados em uma área isolada do aeroporto.

No mês passado, surgiram relatos de um vazamento no sistema de vistos da Somália, que expôs dados de cerca de 35 mil pessoas, incluindo alguns colombianos que viajaram para o Sudão.

"Temos que investigar, e estamos fazendo isso", disse à AFP o assessor de segurança nacional da Somália, Awes Hagi Yusuf, que destacou a necessidade de provas sólidas e de manter boas relações com os Emirados.

O ministro da Defesa somali declarou ao Parlamento que aviões voaram de Bosaso "em direção ao Chade e ao Níger, com destino ao oeste do Sudão".

Um morador que frequenta o aeroporto a trabalho disse ter visto, entre março e julho, grupos de estrangeiros de pele clara, de "entre 30 e 40 anos, com porte militar, alinhados e transportados em aviões de carga". Ele afirmou que eram escoltados com frequência a uma área do aeroporto que abriga militares dos Emirados.

Ali Jama, outro morador local, disse ter visto em abril estrangeiros com equipamento tático embarcarem em uma aeronave de carga.

Imagens de satélite e rastreadores de voo mostram uma atividade constante de aviões Ilyushin IL-76D nessa pista, iguais a outros identificados pela AFP em bases aéreas nos Emirados e na Líbia.

Várias famílias de mercenários colombianos mortos no Sudão lutam para receber um suposto seguro de vida, uma esperança que as afasta de entrevistas.

- Rota do dinheiro -

Na semana passada, os Estados Unidos sancionaram o ex-coronel Quijano e sua mulher, Claudia Oliveros, por serem figuras-chave de uma "rede transnacional" que recruta colombianos "para lutar ao lado do grupo paramilitar sudanês".

"Desde setembro de 2024, centenas de ex-militares colombianos viajaram ao Sudão para lutar ao lado das FAR", afirmou o Departamento do Tesouro, destacando que alguns deles treinaram menores de idade para o combate.

O ex-major Omar Rodríguez fundou a A4SI como uma agência de emprego em 2017. Ele buscou se associar a Quijano porque o ex-coronel tinha conexões melhores nos Emirados, explicou. Em 2022, endividado, Rodríguez vendeu suas ações à mulher de Quijano, atual proprietária da agência.

O ex-major conversou com a AFP em uma tentativa de limpar seu nome de uma operação "ilegal" de "tráfico" de pessoas que pretende "colocar 2.500 homens" no Sudão.

A AFP obteve 26 documentos assinados por colombianos na Líbia, nos quais eles autorizam a empresa emiradense GSSG a pagar seus salários por meio de uma empresa registrada no Panamá por Claudia Oliveros. Um contrato como "guarda de segurança" adverte sobre consequências "civis e penais" nos Emirados em caso de quebra de confidencialidade.

Registros corporativos emiradenses de 2018 mostram o empresário Mohamed Hamdan Alzaabi como proprietário da GSSG, descrita em seu site como "único fornecedor de serviços de segurança privada armada para o governo dos Emirados".

A GSSG retirou recentemente de seu site uma seção que listava três dos seus clientes: o Ministério do Interior dos Emirados, a chancelaria e o Ministério de Assuntos Presidenciais.

Nem a GSSG nem suas redes associadas na América Latina, como a A4SI, aceitaram falar com a AFP.

- 'Pessoas muito poderosas' -

Os Emirados Árabes negam sua participação na guerra por meio de apoio aos paramilitares, apesar de relatórios de especialistas da ONU, parlamentares americanos e organizações internacionais apontarem o contrário.

"Os Emirados negam categoricamente qualquer acusação de terem fornecido, financiado, transportado ou facilitado" recursos para alimentar o conflito "por meio de qualquer canal ou corredor", respondeu um funcionário consultado sobre a investigação.

Segundo diplomatas e analistas, o país tem interesse em jazidas de ouro, terras agrícolas e na posição estratégica do Sudão, com uma extensa costa no Mar Vermelho.

O Congresso da Colômbia aprovou recentemente uma lei que proíbe o recrutamento de mercenários, após décadas de relatos sobre ex-militares envolvidos em conflitos como os do Haiti, Afeganistão e da Ucrânia.

Mas a medida chegou tarde para um jovem de 25 anos morto em combate no Sudão no fim de 2024. "As cinzas já chegaram à Colômbia", disse à AFP uma mulher, que se identificou como sua prima.

C.M.Harper--TFWP