The Fort Worth Press - Medo e trauma: quando a queda deixa cicatrizes invisíveis

USD -
AED 3.672498
AFN 63.99954
ALL 81.109773
AMD 359.873322
ANG 1.789785
AOA 918.000273
ARS 1528.316696
AUD 1.422678
AWG 1.8025
AZN 1.698207
BAM 1.74477
BBD 2.011597
BDT 123.993042
BGN 1.747831
BHD 0.377091
BIF 2997.279094
BMD 1
BND 1.275971
BOB 12.110264
BRL 5.440101
BSD 0.998796
BTN 94.782997
BWP 13.79901
BYN 2.942058
BYR 19600
BZD 2.008653
CAD 1.39745
CDF 2315.000059
CHF 0.823841
CLF 0.025228
CLP 992.920135
CNY 6.661101
CNH 6.651303
COP 3164.280298
CRC 454.168339
CUC 1
CUP 23.969847
CVE 98.367456
CZK 21.815955
DJF 177.849146
DKK 6.697404
DOP 60.537937
DZD 135.196931
EGP 55.738436
ERN 15
ETB 161.241358
EUR 0.892404
FJD 2.243703
FKP 0.746726
GBP 0.746436
GEL 2.602977
GGP 0.746726
GHS 11.635666
GIP 0.746726
GMD 73.999556
GNF 8839.823364
GTQ 7.635488
GYD 209.349213
HKD 7.84585
HNL 26.845087
HRK 6.76901
HTG 130.853294
HUF 327.940563
IDR 18127.15
ILS 3.14456
IMP 0.746726
INR 94.912501
IQD 1514.072885
IRR 1868414.999966
ISK 121.829745
JEP 0.746726
JMD 158.713591
JOD 0.70896
JPY 157.562496
KES 129.791695
KGS 87.448703
KHR 4075.114858
KMF 441.000373
KPW 899.999961
KRW 1333.419706
KWD 0.31117
KYD 0.83233
KZT 452.856952
LAK 22487.176056
LBP 89438.155136
LKR 332.209287
LRD 169.784558
LSL 16.644543
LTL 2.95274
LVL 0.60489
LYD 6.420447
MAD 9.82042
MDL 17.877693
MGA 4517.596681
MKD 54.931085
MMK 2099.629361
MNT 3599.514763
MOP 8.070654
MRU 40.499576
MUR 47.280003
MVR 15.449554
MWK 1731.477764
MXN 18.78615
MYR 4.058201
MZN 63.909961
NAD 16.644543
NGN 1346.469968
NIO 36.754539
NOK 9.208498
NPR 151.652616
NZD 1.772422
OMR 0.382702
PAB 0.998885
PEN 3.456889
PGK 4.545252
PHP 63.764498
PKR 276.304474
PLN 3.94725
PYG 5851.286855
QAR 3.64084
RON 4.782204
RSD 104.839645
RUB 80.300995
RWF 1474.374415
SAR 3.7544
SBD 8.058206
SCR 14.652482
SDG 601.496279
SEK 9.8262
SGD 1.278801
SHP 0.748335
SLE 22.904341
SLL 20969.504398
SOS 570.765868
SRD 37.619498
STD 20697.981008
STN 21.856461
SVC 8.739016
SYP 13001.999685
SZL 16.639458
THB 33.723017
TJS 9.193541
TMT 3.5
TND 2.986752
TOP 2.40776
TRY 49.933803
TTD 6.771935
TWD 32.621402
TZS 2646.683617
UAH 45.299969
UGX 4244.613944
UYU 40.153441
UZS 11979.124849
VES 887.479802
VND 25803.5
VUV 118.626367
WST 2.776217
XAF 585.378705
XAG 0.020359
XAU 0.000258029557
XCD 2.70255
XCG 1.799991
XDR 0.707052
XOF 585.378705
XPF 106.3919
YER 236.203851
ZAR 16.719695
ZMK 9001.196392
ZMW 20.14006
ZWL 321.999592
SSP 5745.217636
MXV 2.117302
Medo e trauma: quando a queda deixa cicatrizes invisíveis
Medo e trauma: quando a queda deixa cicatrizes invisíveis / foto: © AFP

Medo e trauma: quando a queda deixa cicatrizes invisíveis

A queda e depois o medo que, às vezes, nunca desaparece: nos esportes de alto risco como esqui e ciclismo, os acidentes deixam cicatrizes profundas, não só físicas, mas também psicológicas, ao ponto de alguns atletas nunca mais recuperarem seu nível.

Tamanho do texto:

Como subir novamente nos esquis, em uma bicicleta ou em uma moto depois de ter parado no hospital como ossos quebrados? Como voltar a ser competitivo, disposto a correr riscos para isso, depois de ter estado perto da morte? Vários atletas tiveram que se fazer essas perguntas após uma série de acidentes assustadores nos últimos anos.

Só no esqui alpino, a estrela americana Mikaela Shiffrin perfurou a pélvis, a tcheca Terez Nova está em coma induzido e o francês Cyprien Sarrazin sofreu uma grave concussão cerebral no final de dezembro em Bormio, na Itália.

Desde o início da temporada, praticamente não houve uma corrida em que algum participante não teve que ser levado de helicóptero a um hospital.

Depois de um acidente desta gravidade, o atleta inicia um longo processo de recuperação.

"Quando você cai a 130 km/h, isso deixa marcas na sua cabeça. Seria simplesmente mentir para si mesmo dizer que está tudo bem", confessa o esquiador francês Alexis Pinturault, que tem 34 vitórias em Copas do Mundo, durante uma entrevista à AFP no dia 22 de janeiro em Kitzbühel, na Áustria.

Dois dias depois, Pinturault sofreu uma queda no slalom gigante. O resultado: fratura do planalto tibial do joelho direito. A temporada, e talvez até sua carreira, acabou.

- 'Meu corpo dizia que não' -

O bicampeão mundial de esqui alpino combinado já havia abreviado sua temporada há um ano depois de romper o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo em Wengen (Suíça).

Ao voltar a esquiar, ele ainda sente que algo está errado, sente um medo: "Eu poderia correr mais riscos, mas tinha algo na minha cabeça que me segurava. Meu corpo dizia que não. Você tem que reaprender que tudo está sob controle, que dá para administrar. Necessariamente, isso leva tempo".

O ciclista belga Steff Cras também precisou de tempo para assimilar sua forte queda em abril do ano passado na Volta ao País Basco, a mesma prova em que estrelas como Remco Evenepoel e Jonas Vingegaard também sofreram graves acidentes.

"A 20 centímetros de distância, eu teria morrido", lembra Cras, explicando à AFP como desviou de um bloqueio de concreto a mais de 60 km/h.

As lesões foram graves. Um pneumotórax e fraturas nas costelas e vértebras o impediram de respirar por 30 segundos.

Quatro meses depois, ele encontrou forças para terminar em 16º no Tour de France, mas por um alto preço: "Pressionei meu corpo demais e tive que pagar. Desenvolvi herpes-zóster [doença produzida por uma reativação do vírus latente varicela-zóster]".

"A cabeça, estranhamente, estava bem. No entanto, fiquei muito marcado por outra queda quando me choquei com um espectador no Tour de France", em 2023. "Depois, mentalmente, estava morto. Tinha medo de rodar no pelotão com espectadores ao longo da estrada. Penso nisso até hoje".

- 'Desativar o fantasma' -

Para superar a ansiedade, Steff Cras procurou um psicólogo. "Também falo muito com a minha esposa. Para mim, isso é suficiente".

"Às vezes, o simples fato de detalhar o evento traumático pode ser suficiente", destaca Cécilia Delage, psicóloga esportiva que acompanha a campeã olímpica de esqui alpino Perrine Laffont.

Mas na maioria das vezes, esse "estresse pós-traumático" exige um trabalho psicológico mais profundo "para que o medo de se machucar novamente não supere o desejo de agir".

O risco de se instalar um círculo vicioso "e terminarmos com atletas que se lançam em uma descida a toda velocidade com travas" é o pior dos cenários.

"É como quando você dirige um carro na neve. Se você controla a condução sem usar os freios, vai chegar bem. Se, por outro lado, você freia de repente porque está com medo, vai sair da estrada", explica.

Existem várias técnicas, como a terapia 'EMDR' (Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares), para tratar o problema.

"Quando existe um trauma, significa que existe uma informação fantasma no cérebro que pode desviar a direção. A 100 km/h, isso rapidamente se torna perigoso. É preciso desativar esse fantasma", explica Fabien Deloche, treinador mental francês que trabalha com esquiadores e ciclistas profissionais.

- 'Medo de morrer' -

O objetivo não é eliminar o medo, e sim transformá-lo. "Se você desconectar o medo, você desconecta a prevenção. Então é preciso reconfigurá-lo e usá-lo para aumentar a atenção e a conexão consigo mesmo", continua Deloche.

Muitos atletas também recorrem à hipnose. Alexis Pinturault considerou a possibilidade. "Acabei indo ver um médico que trabalha o sistema nervoso autônomo, em resumo, a memória muscular. Fizemos exercícios em estado de repouso, um pouco de meditação. O objetivo é 'ressincronizar' o corpo com o cérebro para retomar o controle sobre o trauma".

Cécilia Delage reitera que é necessário "compreender a relação que a pessoa tem como o medo, o risco e, portanto, com a morte". E para isso, às vezes é preciso voltar "muito longe, até o parto, que talvez tenha tido algo errado".

"Tive um caso em que o atleta tinha muito medo de sofrer um traumatismo craniano e não entendia o motivo. Depois de meia dúzia de sessões, ele teve um flash, Lembrou que, quando criança, tinha batido a cabeça em uma pedra no mar e achou que ia morrer. É uma lembrança que havia esquecido por completo. A prática do esporte reativou seu medo de morrer", relata a psicóloga.

Quando a origem do medo é identificada e tratada, é possível começar um trabalho de preparação mental, baseado principalmente na visualização.

O ciclista espanhol Enric Mas, que pelo trauma de três quedas seguidas não conseguia voltar a praticar o esporte, "saiu do buraco" graças à ajuda de um psicólogo e um treinador específico que o fizeram descer estradas em Andorra durante todo o verão.

- 'Cansado de bancar o durão' -

Antoine Dénériaz, campeão olímpico de esqui downhill em 2006, nunca se recuperou da queda que sofreu em Are, na Suécia, apenas três semanas depois de sua maior conquista.

Quando acordou no hospital, estava com "muito medo". Começa então um calvário, corridas disputadas "com o freio de mão puxado", um "estresse permanente" que às vezes faz você "chorar no meio de uma refeição".

"Exausto", Dénériaz encerrou sua carreira um ano depois.

O ciclista Pierre Latour, de 31 anos, também está pensando em se aposentar. "Morro de medo" das descidas, reconhece o corredor da equipe TotalEnergies, desde que sofreu uma forte queda em 2019.

Latour tentou de tudo: psicólogo, hipnólogo, treinador mental, EMDR, treinador de descida, e inclusive um curandeiro. Nada funciona.

"Você se sente bem durante um tempo, mas ao menor contratempo, tudo explode na cabeça, como um alcoólatra que volta a tomar uma dose", explicou o ciclista ao jornal Le Parisien em 2023.

"Cada um é diferente", resume Fabien Deloche. "Existem os que integraram perfeitamente o risco. Outros vão decidir que não podem mais aguentar esse estresse. Eles dizem: 'Vim para me divertir com os amigos e me pego morrendo de medo todos os dias. Estou cansado de bancar o durão'".

As razões da persistência do bloqueio podem ser múltiplas. Talvez o atendimento psicológico tenha chegado tarde demais e o problema se tornou algo como "uma fratura que não cicatriza, que se consolida como pode e depois incomoda por toda a vida", diz Cécilia Delage.

Às vezes o atleta desenvolve resistências, acrescenta a psicóloga: "Quando eles sentem que estamos entrando em um terreno muito escorregadio, que vai deixá-los transtornados, eles fecham tudo, como um mecanismo de defesa psicológica".

- 'Autossabotagem' -

"Geralmente, eles buscam soluções alternativas como acupuntura ou sofrologia. Mas isso não vai resolver a raiz do problema".

Principalmente porque os gatilhos às vezes são muito íntimos: "Ao explorar o acidente, percebemos que pode haver uma autossabotagem. Tive um ciclista cujo medo não era tanto de se machucar, mas de ser repreendido pelo pai, que gritava com ele: 'Você fez alguma coisa estúpida de novo?'. O trauma às vezes não está onde você pensa que está".

Nos esportes automotivos também, a velocidade e o perigo fazem parte da vida cotidiana dos pilotos.

"Temos consciência do perigo desde muito cedo", explica o piloto australiano de Fórmula 1 Daniel Ricciardo.

"Mas nosso esporte também se tornou muito mais seguro ao longo dos anos", acrescenta, fazendo referência à introdução do 'halo' (sistema de proteção do cockpit) em 2018.

Esta barra de titânio, colocada sobre a cabeça dos pilotos, salvou o francês Romain Grosjean em 2020, quando seu carro bateu no 'guard rail' antes de pegar fogo.

Em um carro, estamos em uma célula de segurança" bem protegida, conta à AFP o piloto de rali Adrien Fourmaux.

Entusiasta do ciclismo downhill desde a infância, ele preferiu escolher o rali, que é "menos perigoso".

Inspirados nos esportes automotivos, o esqui e o ciclismo trabalham para melhorar a segurança, principalmente com airbags, e entrar em uma dinâmica virtuosa: menos quedas, menos ferimentos. E menos medo.

S.Jones--TFWP